A morte e a fé - Maio 2016

Algumas vezes nos ocorre certo questionamento, ao nos depararmos com algumas notícias de extremismos religiosos, em que uma pessoa ao que nos parece em sã consciência, carrega presos ao próprio corpo, explosivos para serem detonados em nome de uma guerra considerada santa. Essas pessoas, chamadas de homens bomba levam consigo para o além uma fé inabalável de que estão cumprindo um dever sagrado, e que terão, além de tudo recompensas que os esperam num paraíso prometido pela sua crença religiosa.

A pergunta que não cessa é: que fé tão cega é essa, que permite essa “insanidade” partindo do ponto de vista do nosso tosco raciocínio ocidental? Para estes fundamentalistas essa vida aqui sobre o planeta Terra não é absolutamente nada, nem a dos alvos escolhidos para serem exterminados, nem tampouco a sua própria, pois que a vida verdadeira está num paraíso prometido além da imaginação. É partindo dessa premissa que nos encontramos frente a uma reflexão que diríamos no mínimo filosófica.

A sobrevivência da alma é para a doutrina espírita uma convicção, diante das demonstrações científicas experimentais, através da comunicação com os espíritos. A certeza de que a vida não termina com a morte do corpo físico é a razão pela qual as pessoas que abraçam o espiritismo terem calma e confiança inabaláveis na providência divina e esperança no futuro, será? Deveria ser. Para os estudiosos da Doutrina Espírita, decodificada por Alan Kardec (1804-1869) cada pessoa que é criada por Deus, é uma centelha divina (espírito) que vive eternamente, evoluindo com o passar do tempo, encarnando e reencarnado até que um dia alcance a perfeição (teoria das vidas sucessivas). Para algumas pessoas que possuem outros credos, parece um pensamento um tanto utópico, até mesmo fantasioso, um dos principais argumentos para a descrença é de que seria fácil demais para o homem ter chances indefinidas de regeneração.

Façamos, pois, uma breve reflexão a respeito da fé, em que encontramos esse significado para o conceito: “um sentimento de total de crença em algo ou alguém, ainda que não haja nenhum tipo de evidência que comprove a veracidade da proposição em causa” (¹). Então se uma pessoa se diz convicta na crença espírita, esta não deveria sofrer com a morte de um ente querido, pois que significaria apenas uma separação momentânea.

Deveria funcionar assim, mas nem sempre. Quem disse que ser homo sapiens é fácil? A perda de uma pessoa próxima como um filho, produz uma dor lancinante em uma mãe, por exemplo. A esta dor somam-se diversos sentimentos que contrariam a sua fé. Raciocinar então impossível diante do imutável, dos planos interrompidos e de algo que parece contrariar o curso natural das coisas, afinal os pais deveriam sempre preceder os filhos na jornada de volta para o todo. Daí segue-se a sensação de fracasso, de dever não cumprido, de falha na missão que lhe foi confiada, da falta de orações suficientes, desespero enfim.

Para a mãe, o filho deveria sempre estar sobre a sua proteção e concluir que falhou em sua missão provoca neste ser o desejo de morrer também, pois nada que fizer irá mudar aquela situação. Para os observadores essa reação seria normal em qualquer mãe, com exceção da espírita, pois esta acredita que a vida não acaba com a morte do corpo físico. Infelizmente, não nos parece tão óbvio assim, toda convicção fica abalada diante do trágico.

É claro que as circunstâncias do desencarne colaboram para a reação desta alma em sofrimento. A morte repentina, de aspecto violento ou acidental provoca um inconformismo muito maior do que seria aquela decorrente de doenças que levam ao abandono do corpo físico de uma maneira mais lenta, da qual os familiares vão se preparando para o momento da separação. O choque de uma notícia inesperada provoca uma comoção generalizada que transforma e abala a convicção em algo superior àquilo que se está passando. Pensamentos irracionais tolhem a mente, questionamentos sobre a onipotência do criador que a tudo vê. E quanto aos amigos espirituais que ouvem e processam as orações, não me ouviram? E a dita intuição, uma mãe não a teria, não receberia um aviso? Todo esse torvelinho de sentimentos leva a pobre mãe à quase loucura.

Eis que num determinado momento a senhora mãe espírita ouve de alguém próximo: - Mas você não é espírita, porque então o desespero? Não deveria estar calma e confiante?

É com estas duas perguntas que encerramos a nossa reflexão, convidando o possível leitor deste texto a fazer uma análise de suas próprias convicções, levantando outra questão: e se fosse com você?

(1) http://www.significados.com.br/fe/

Rosana Santana, Biliotecaria, membro do GELP.

Os artigos desta coluna baseiam‐se em estudos e pesquisas desenvolvidos pelo CPDoc. www.cpdocespirita.com.br /Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

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